Tiraram-lhe os pés!
A dor que parecia doer
doía
e ainda doíam os pés que já não tinha
doía-lhe a lembrança de doer os pés
bem a ponta acúlea da dor
e do membro extirpado
Doía-lhe um tanto e malfadado pensamento
capaz de fazer doer a sensação do corpo inteiro
impedindo debelar-se
sobre fatos
sobre imagens
Impotente e saturada foi chorar
o membro que levaram de si
- porque assim lhe parecia -
quando fez-se noite em seus sentidos
e na sua esperança
e na crença que a sustentava sobre o calcanhar extinto.
quarta-feira, 10 de setembro de 2008
sábado, 6 de setembro de 2008
Contraponto
Quanto tem de verdade no amor
e de amor na verdade?
Que não seja cruel ou omissa
ou ambígüo.
Quanto deve haver de verdade?
Que não esbarre no medo, que o medo não esbarre na alma
que a alma não se culpe nem desculpe por nada...
Nem dê motivos para se amar menos, ou amando mais
fique naturalmente confessa.
É possível haver verdade no amor
e amor na verdade
em que um esteja sempre no outro
com o conforto de não ter que pensar nisso?
e de amor na verdade?
Que não seja cruel ou omissa
ou ambígüo.
Quanto deve haver de verdade?
Que não esbarre no medo, que o medo não esbarre na alma
que a alma não se culpe nem desculpe por nada...
Nem dê motivos para se amar menos, ou amando mais
fique naturalmente confessa.
É possível haver verdade no amor
e amor na verdade
em que um esteja sempre no outro
com o conforto de não ter que pensar nisso?
quinta-feira, 1 de maio de 2008
Encomenda (Cecília Meireles)
Desejo uma fotografia
como esta - o senhor vê? - como esta:
em que para sempre me ria
com um vestido de eterna festa.
Como tenho a testa sombria,
derrame luz na minha testa.
Deixe esta ruga, que me empresta
um certo ar de sabedoria.
Não mêta fundos de floresta
nem arbitrária fantasia...
Não... Neste espaço que ainda resta,
ponha uma cadeira vazia.
como esta - o senhor vê? - como esta:
em que para sempre me ria
com um vestido de eterna festa.
Como tenho a testa sombria,
derrame luz na minha testa.
Deixe esta ruga, que me empresta
um certo ar de sabedoria.
Não mêta fundos de floresta
nem arbitrária fantasia...
Não... Neste espaço que ainda resta,
ponha uma cadeira vazia.
domingo, 20 de abril de 2008
Risca de Giz
Hoje andava distraída pela avenida, distraída pelas vias da vida. Andava alegre com o vício e a virtude que ocuparam meu rosto.
Mas me atraía um desgosto: um paletó rasgado, de riscas de giz interrompidas, bem na minha frente, tentando atravessar a avenida pelos quinhentos metros adiante... eu nem podia tirar os olhos daquilo! Tanto pavor e tentativas só haveria de ser o prenúncio de uma desgraça - que, em verdade, não queria ver - que não podia deixar de olhar. Ainda mais com aquele paletó!
Se voltasse... não poderia: tinha que continuar naquela direção. Nos primeiros cem metros estava aflita. Ao ponto de pensar em oferecer ajuda. O semáforo fechou, pensei: Agora vai! Não foi. Já era o meio do quarteirão, nenhuma faixa de pedestre por perto. O semáforo abriu. Pronto! Já estragou a minha distração! Agora poderia esperar na faixa até o semáforo fechar outra vez. Não esperou. Aquelas riscas se embaralhavam no tecido roto, no andar hesitante. Não tinha ritmo, nem precisão de movimentos. Ia chacolhando os braços, as pernas, espantando pássaros, e atormentando os transeuntes. Alguns automóveis chegaram quase a ceder-lhe passagem. Desistiam. Talvez se aquele paletó... acho que tinham medo. Nos trezentos metros já começara a divagar sobre a origem e destino da criatura do paletó farfalhante. Passara da distração à preocupação. Desse ponto retornei às minhas virtudes e vícios. Tentava lembrar da alegria da caminhada. O rosto foi ficando mais relaxado, um leve sorriso retornou com a lembrança. Quinhentos metros: fecha o semáforo. Agora foi!!! Eu é que estou ficando velha...
Mas me atraía um desgosto: um paletó rasgado, de riscas de giz interrompidas, bem na minha frente, tentando atravessar a avenida pelos quinhentos metros adiante... eu nem podia tirar os olhos daquilo! Tanto pavor e tentativas só haveria de ser o prenúncio de uma desgraça - que, em verdade, não queria ver - que não podia deixar de olhar. Ainda mais com aquele paletó!
Se voltasse... não poderia: tinha que continuar naquela direção. Nos primeiros cem metros estava aflita. Ao ponto de pensar em oferecer ajuda. O semáforo fechou, pensei: Agora vai! Não foi. Já era o meio do quarteirão, nenhuma faixa de pedestre por perto. O semáforo abriu. Pronto! Já estragou a minha distração! Agora poderia esperar na faixa até o semáforo fechar outra vez. Não esperou. Aquelas riscas se embaralhavam no tecido roto, no andar hesitante. Não tinha ritmo, nem precisão de movimentos. Ia chacolhando os braços, as pernas, espantando pássaros, e atormentando os transeuntes. Alguns automóveis chegaram quase a ceder-lhe passagem. Desistiam. Talvez se aquele paletó... acho que tinham medo. Nos trezentos metros já começara a divagar sobre a origem e destino da criatura do paletó farfalhante. Passara da distração à preocupação. Desse ponto retornei às minhas virtudes e vícios. Tentava lembrar da alegria da caminhada. O rosto foi ficando mais relaxado, um leve sorriso retornou com a lembrança. Quinhentos metros: fecha o semáforo. Agora foi!!! Eu é que estou ficando velha...
terça-feira, 8 de abril de 2008
Aos estúpidos
Vai ver que um elogio lhe basta!
Vai ver que a batalha lhe apraz
Vai ver que o ódio alimenta
essas feridas pútridas que finge não ver
Logo se vê como crê na banalidade
no automóvel bem cotado
no fim de semana, no hedonismo,
no fim do dia sem conversa
na poltrona do adolescente aposentado
com aquele que não é o seu salário
Vai ver que se contenta com riqueza de moeda
que pensa que lhe comprará a saúde
a amizade, o amor... que nunca tivera...
Vai ver que só pensa mesmo em ganhar
e mais uma vez se contenta
e ostenta o ódio que aumenta
o saldo de ilusão de vitória
o saldo de ilusão de companhia
que jamais por si sustentaria
sem escravizar almas aqui e ali
Vai ver que não vai ver...
nem agora, nem nunca!
Vai ver que o arrivista não premedita
senão sob a crença banal de que domina
o que jamais teria...
e na ilusão mesma de domínio
perde-se no que enredou
asfixiado no ódio com que perseguiu.
Vai ver que a batalha lhe apraz
Vai ver que o ódio alimenta
essas feridas pútridas que finge não ver
Logo se vê como crê na banalidade
no automóvel bem cotado
no fim de semana, no hedonismo,
no fim do dia sem conversa
na poltrona do adolescente aposentado
com aquele que não é o seu salário
Vai ver que se contenta com riqueza de moeda
que pensa que lhe comprará a saúde
a amizade, o amor... que nunca tivera...
Vai ver que só pensa mesmo em ganhar
e mais uma vez se contenta
e ostenta o ódio que aumenta
o saldo de ilusão de vitória
o saldo de ilusão de companhia
que jamais por si sustentaria
sem escravizar almas aqui e ali
Vai ver que não vai ver...
nem agora, nem nunca!
Vai ver que o arrivista não premedita
senão sob a crença banal de que domina
o que jamais teria...
e na ilusão mesma de domínio
perde-se no que enredou
asfixiado no ódio com que perseguiu.
sábado, 5 de abril de 2008
Conselho de anjo (janeiro/2007 – às mães que ficam longe dos filhos)
I
Corre menina! Corre!
Que não te socorre a brisa
Corre! Não socorre a vida
Que espera estanque, estática
Não socorre o mote
Que te espera o bote de serpente ferina
Corre! Corre menina!
Alcança adiante, defronte, na frente
Menina! Não te socorre um verso
Nem que estivesse vestida
E corresse…
Que nem correr socorre
Que nem distância percorre
E continua imóvel
Nem o infinitesimal de espaço de um toque
Nem o cabelo molhado nas costas
De um dia quente
Nem a caneca que aquece a mão
Num dia frio
Nenhum semblante contente que viu
Nem que tente!
Então não corra, menina!
Durma.
II
Durma sem pressa
Sem reza
Sem fresta de luz que desperte
Continue imóvel, inerte,
No sono que descansa
No descalço que conforta
No sonho que alcança
Sem censura, nem usura,
Dorme pura
Vê a cura
A porta
A sorte, no sono
E na morte
O descanso da alma.
III
Quando despertar, menina,
Não pense!
Não pense, menina, no que não sentir
Então sinta
Que pensar será inevitável
Sinta a alegria indispensável
Recomeçe o dia passado, hoje
Apenas agora
Não minta
Sem demora
Sinta.
Corre menina! Corre!
Que não te socorre a brisa
Corre! Não socorre a vida
Que espera estanque, estática
Não socorre o mote
Que te espera o bote de serpente ferina
Corre! Corre menina!
Alcança adiante, defronte, na frente
Menina! Não te socorre um verso
Nem que estivesse vestida
E corresse…
Que nem correr socorre
Que nem distância percorre
E continua imóvel
Nem o infinitesimal de espaço de um toque
Nem o cabelo molhado nas costas
De um dia quente
Nem a caneca que aquece a mão
Num dia frio
Nenhum semblante contente que viu
Nem que tente!
Então não corra, menina!
Durma.
II
Durma sem pressa
Sem reza
Sem fresta de luz que desperte
Continue imóvel, inerte,
No sono que descansa
No descalço que conforta
No sonho que alcança
Sem censura, nem usura,
Dorme pura
Vê a cura
A porta
A sorte, no sono
E na morte
O descanso da alma.
III
Quando despertar, menina,
Não pense!
Não pense, menina, no que não sentir
Então sinta
Que pensar será inevitável
Sinta a alegria indispensável
Recomeçe o dia passado, hoje
Apenas agora
Não minta
Sem demora
Sinta.
Xingatório (ao bom e ao mau humor que todos temos - novembro/2007)
Ou maledicência
Tanto faz
Ou desacato
Incontinência
Ou coragem
Tanto faz...
Impropérios
Ou destempero
Desmerecimento ou desvantagem
Esclarecimento ou revolta
Ou revolto pensamento
Tanto faz, não importa
Tanto faz se em voz alta
Ou baixa
Ou muda
Ou morta
Tanto faz se aponta
É hora do xingatório:
Alguém há de ouvir!
Cortejo cômico do desespero!
Patético linguajar, fuleiro!
Impróprio, inverossímil, derradeiro!
E consumir seu significado deturpado:
E enlouquecer ao mesmo tempo
E recobrar a consciência
O xingatório se dissipa
Um ofendido trapaceia
Um vocábulo transverso que digere
Um pudibundo alegre versa
A moral e os bons costumes...
Alguém se desculpa
Alguém aceita, alguém se nega,
E continua, continua, continua...
Tanto faz
Ou desacato
Incontinência
Ou coragem
Tanto faz...
Impropérios
Ou destempero
Desmerecimento ou desvantagem
Esclarecimento ou revolta
Ou revolto pensamento
Tanto faz, não importa
Tanto faz se em voz alta
Ou baixa
Ou muda
Ou morta
Tanto faz se aponta
É hora do xingatório:
Alguém há de ouvir!
Cortejo cômico do desespero!
Patético linguajar, fuleiro!
Impróprio, inverossímil, derradeiro!
E consumir seu significado deturpado:
E enlouquecer ao mesmo tempo
E recobrar a consciência
O xingatório se dissipa
Um ofendido trapaceia
Um vocábulo transverso que digere
Um pudibundo alegre versa
A moral e os bons costumes...
Alguém se desculpa
Alguém aceita, alguém se nega,
E continua, continua, continua...
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